EUA · Sadomasoquismo · Religião e Crime

Albert Hamilton Fish — O Horror Por Trás do Rosto Gentil

Autor Rubens Correia Jr.
Período 1870 — 1936
Referência Bielba, 2007; Tendlarz & Garcia, 2013
Texto © Rubens Correia Jr.
Imagem Gerada por IA

Albert Fish, a despeito de tantos outros assassinos, não teve uma infância que pudesse justificar suas atrocidades — pelo menos não até os cinco anos — uma vez que nasceu em uma família relativamente comum, uma típica família americana em plena expansão industrial no início da década de 1870. O mundo vivenciava uma mudança brusca em sua engrenagem de trabalho, no perfil urbano e no dia a dia das pessoas comuns.

A família Fish, nos primeiros anos de Albert, aparentemente vivia em harmonia. Em contrapartida a esse ilusório equilíbrio familiar, sua árvore genealógica era no mínimo peculiar — podíamos encontrar uma série de doenças mentais e diversas perturbações de ordem psiquiátrica em seus antepassados. Transtornos de comportamento eram vistos de maneira recorrente em seus parentes.

"Acredita-se que sua mãe padecia de esquizofrenia, porque sempre dizia que ouvia vozes. Sua irmã estava louca e seu irmão era um alcoólatra. De seus tios, dois estavam internados em um sanatório."

— BIELBA, 2007, p. 121-122
O Orfanato e o Trauma Fundante

Fish, o terceiro filho de quatro irmãos, viveu a citada vida típica de uma família americana no século XIX até seus cinco anos. Quando se abateu sobre ele uma tragédia: a morte de seu pai. Após este episódio foi levado a um orfanato — e lá, logo cedo, vivenciou uma série de violências e crueldades. Dentre tais abusos, foi recorrentemente espancado e chicoteado. Foi ainda nesta época que começou uma periódica enurese noturna.

"Albert Fish declarou que seu sadomasoquismo se devia a suas amargas experiências juvenis, realizadas nestas instituições."

— Tendlarz e Garcia, 2013, p. 154

Aos nove anos sua mãe supostamente conseguiu reaver sua guarda. No entanto, os traumas vividos pelo pequeno Albert dentro do orfanato jamais seriam esquecidos. Tinha dificuldades para dormir e principalmente descobriu ainda criança que as sessões que lhe infligiam dor no orfanato causavam estranhamente um sentimento de satisfação.

Esta relação entre dor e prazer foi melhor desenvolvida a partir dos 12 anos e o acompanhou por toda a vida. Ainda garoto surgiu também um fanatismo religioso aliado a este sadismo — que o levou a uma fixação binária entre dor versus expiação dos pecados. A partir destes ingredientes se desenvolveu um sadomasoquismo obsessivo.

Uma Vida de Transgressões

Especula-se que a introdução de objetos em sua pele — como agulhas e pregos, principalmente em seus genitais — tenha começado na adolescência, juntamente com a compulsão pela masturbação. Estes comportamentos levaram-no a uma série de internações em manicômios.

Ainda no começo da adolescência, Albert foi iniciado sexualmente por pessoas mais velhas que acabaram por lhe mostrar outros comportamentos sexuais não usuais. Historiadores afirmam que Fish teve contato com a coprofagia após os 12 anos. Aos 15 também já praticava frequentemente o voyeurismo. Aos 18 apresentava fortes sinais de pedofilia.

Aos 28 anos, morando em Nova Iorque, casou-se com uma mulher de 19 anos. De tal união nasceram seis filhos. Nesta época já praticava uma série de crimes sexuais e também se prostituía. Foi casado por mais de uma década — parte deste tempo esteve preso por diversos crimes. Aos 47 anos, após a separação, Fish começou a apresentar alucinações ainda mais acentuadas e se tornou mais obcecado pela dor e por todos os tipos de sacrifício.

Albert Fish — Algumas de suas Parafilias

  • Sadomasoquismo
  • Coprofagia
  • Voyeurismo
  • Pedofilia
  • Urofilia
  • Canibalismo
  • Automutilação compulsiva
  • Masoquismo religioso
  • Necrofilia
  • Exibicionismo
As Vítimas

A data de seu primeiro homicídio é incerta. Alguns apontam 1924 como o ano que fez sua primeira vítima, no entanto desde 1910 especula-se que Albert Fish tenha matado e sodomizado outras crianças. A quantidade de mortes também é uma incógnita — em algumas de suas biografias apontam 50, outros acreditam em mais de 100 vítimas fatais.

Suas vítimas ideais eram crianças, das quais tinha prazer em desmembrar os corpos e depois literalmente comer as partes no jantar ou almoço. Torturava de maneira selvagem, desnudava as crianças, cortava orelhas e nariz, introduzia agulhas e outros artefatos nas vítimas.

Nos anos que se seguiram, Fish foi preso diversas vezes por delitos variados, sendo até mesmo confinado a um hospital psiquiátrico — onde o diagnosticaram como sendo uma personalidade psicopata do tipo sexual. Mas em nenhum momento relacionaram aquele senhor ao desaparecimento de tantas crianças e jovens.

O sadismo de Fish chegou ao ponto de enviar uma carta à mãe de uma das vítimas, descrevendo de maneira cruel todos os atos que infligiu à filha. Uma criança que Fish havia convidado para ir a uma festa de aniversário — e a mãe, confiando naquele senhor aparentemente tranquilo e respeitável, havia inocentemente autorizado.

Essa carta acabou por ser seu ato derradeiro, pois a polícia conseguiu pouco tempo depois encontrá-lo. Foi julgado por 15 homicídios, embora tenha confessado mais de 100. Sua defesa tentou alegar insanidade. No entanto, o júri considerou-o culpado e ele recebeu a pena de morte, sendo executado em 1936.

"Que alegria morrer na cadeira elétrica. Será minha última excitação. A única que ainda não tenha provado."

— Albert Fish, antes de sua execução (BIELBA, 2007, p. 125)

No fatídico dia, demorou a morrer — talvez devido à quantidade de agulhas que trazia consigo, dentro de sua pelve.

Perspectiva Psicanalítica · Rubens Correia Jr.

O caso Fish é clinicamente singular pela articulação entre religiosidade, masoquismo e sadismo extremo. A equação que Fish construiu — dor como expiação, violência como sacrifício, canibalismo como comunhão — revela uma estrutura onde o gozo é absolutamente mediado pela fantasia religiosa. Fish não matava apesar de sua fé. Fish matava através dela.

Sob a perspectiva lacaniana, Fish é um caso de perversão consumada, onde o sujeito se coloca como instrumento do gozo do Outro — mas de um Outro absolutamente imaginário, construído em torno de um Deus sanguinário e exigente. A autoflagelação não era punição pelos crimes: era preparação para eles. Era o ritual que dava sentido ao ato.

O que mais perturba no caso Fish não é a dimensão dos crimes — é a aparência. O "vovô gentil", sorridente, querido pelas crianças da vizinhança. Esse contraste radical entre a fachada social e o horror interno é precisamente o que a Teoria Joker, desenvolvida no Volume III da Trilogia Desvendando Mentes, busca explicar: não existe um rosto para o monstro. E é exatamente por isso que ele continua entre nós.

Aprofunde-se

Arquivo Serial Killer

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