Serial Killer · EUA · Teoria Joker

Ted Bundy — O Charme Como Mecanismo de Controle

Autor Rubens Correia Jr.
Categoria Serial Killer · EUA
Referência Tendlarz & Garcia, 2013
Texto © Rubens Correia Jr.
Imagem Gerada por IA
Texto © Rubens Correia Jr.
Imagem Gerada por IA

Para muitos autores e estudiosos, se existisse uma classificação entre os delinquentes em série por sua astúcia, sua dissimulação ou mesmo por sua inteligência com certeza Bundy figuraria entre os primeiros. Este sujeito aterrorizou vários estados americanos (Washington, Colorado, Flórida, etc) entre 1973 e 1978 matando mais de uma dezena — as vítimas podem chegar a 40 — de jovens mulheres.

Theodore nasceu em 1946, filho de mãe solteira, nunca conheceu o pai e pouco soube sobre sua história. Além disso, acabou sendo criado pelos avós como se fosse filho biológico destes e acreditou durante toda a infância e adolescência que sua mãe era apenas sua irmã mais velha.

Cresceu com os avós quando criança e mantinha um relacionamento conturbado com o avô, considerado pela família como racista e violento. Pouco depois sua mãe se mudou e levou Ted consigo. A criança não se satisfez com a mudança e a separação daqueles que imaginava serem seus pais verdadeiros.

Sua mãe logo depois se casou e Theodore herdou o sobrenome Bundy. Tal casamento foi próspero, pelo menos para sua mãe e seu padrasto que tiveram quatro filhos. No entanto, Bundy nunca se sentiu à vontade em casa e nunca se identificou com aquele homem.

Apesar disso, na escola era um estudante destacado e sempre tirava ótimas notas, embora o relacionamento com os colegas não fosse o mais harmonioso. Tinha posição de destaque também na igreja e os mais velhos admiravam seu comportamento.

Embora o verniz de um bom aluno e bom filho prevalecesse neste período, vale lembrar que no fim da adolescência e no começo da idade adulta suspeita-se que Bundy já era um masturbador compulsivo, voyeur, ladrão de carros e praticante de pequenos furtos. Os maus-tratos frente a animais também apareceram em sua infância.

"Quando era um garoto de 12 ou 13 anos, tive contato com a pornografia leve fora de casa, no mercado local e nas farmácias. O tipo mais nocivo de pornografia — e falo por experiência própria, real, vivida na pele — é o que envolve violência e violência sexual."

— Ted Bundy, entrevista antes de sua execução (SCHECHTER, 2013, p. 271)

O que torna a personalidade de Bundy peculiar, já neste período, é que apesar de seu comportamento introspectivo e genioso — e também os seus delitos — Ted Bundy ainda conseguiu ganhar uma comenda por bons atos perante a comunidade. Ele conseguia dar às pessoas o que elas desejavam, mas era cada vez mais claro que o afeto sincero e a empatia eram sentimentos alheios ao jovem Theodore.

O comportamento de Ted teve significativa piora depois que toda a mentira sobre seus avós e sua mãe veio à tona. Após este momento, acessos de raiva foram cada vez mais frequentes.

Ao completar o ensino médio decidiu ingressar na faculdade em Washington no curso de psicologia. Nesta época conheceu Stephanie, uma jovem de família rica que o encantou. Os dois namoraram durante o tempo de faculdade e Ted era verdadeiramente obcecado por ela. Mas sua namorada não viu futuro no relacionamento e terminou. Para Ted esse foi um grande golpe.

Em 1972 Bundy se formou e já em 1973 se matriculou em Direito no Estado de Utah. Durante uma viagem acabou reencontrando sua antiga namorada Stephanie. Eles reataram e viveram momentos intensos durante algumas semanas. No entanto, apesar de Ted se mostrar apaixonado nos primeiros dias, de repente se tornou frio e distante e acabou terminando sem nenhum motivo aparente.

Na verdade o fim parecia uma vingança frente ao primeiro término do casal. Toda sua entrega aos estudos e a gana por procurar um emprego e construir uma carreira tiveram como objetivo fazer com que sua antiga namorada voltasse. Ele sempre desejou revidar ter sido abandonado antes.

O Modus Operandi

Mas um pouco antes de terminar, Bundy já havia começado a trilhar seu caminho de homicídios. Todas as vítimas que viriam seriam mulheres, jovens, brancas, de cabelos negros compridos e partidos ao meio.

Enquanto estuprava e matava mulheres, Bundy não se descuidou de seu verniz social e continuava a encantar as pessoas com sua educação e presteza. Ted chegou a trabalhar em um serviço semelhante ao CVV (Centro de Valorização da Vida), onde atendia telefonemas de propensos suicidas com o objetivo de ajudá-los. O mais interessante é que todas as pessoas que conviveram com Bundy na época o consideravam atraente, autoconfiante e bem-sucedido na sua ajuda ao próximo.

"Perseguia as mulheres, as atacava preferencialmente em suas próprias casas ou quartos e em algumas ocasiões as sequestrava, para depois assassiná-las e sodomizá-las, inclusive as mordia. Enquanto assassinava umas, ao mesmo tempo saía com grande êxito com outras; se declarava 'um homem muito romântico'."

— Tendlarz e Garcia, 2013, p. 217

Os desaparecimentos aumentavam, mas a polícia não tinha evidências de que pudesse ser um homicida em série. Uma das técnicas de Bundy era fingir uma vulnerabilidade física para que a vítima o ajudasse até seu veículo. Chegando ao automóvel, a vítima descobria que foi enganada no momento em que, bruscamente, era empurrada para dentro do veículo e imediatamente sequestrada.

A polícia recebeu várias ligações — inclusive de uma das namoradas de Bundy, que deu detalhes de como ele tinha fixação por sexo violento. Mas o histórico de Ted combinado com sua postura altiva fizeram os investigadores descartarem aquele indivíduo, afinal a polícia buscava um suspeito que tivesse algum estigma ou estereótipo criminoso — e Bundy não se adequava a nenhum desses perfis.

Bundy começou a cometer pequenos erros que seriam seu fim. Uma das vítimas conseguiu fugir e denunciou. Meses depois a polícia, em uma ronda noturna, solicitou que o carro que Bundy dirigia parasse. O homicida não respeitou a ordem. Os policiais conseguiram detê-lo e encontraram no carro uma série de artefatos suspeitos: cordas, barras de metal, máscara e arame.

Bundy havia sido preso. No entanto, ele conseguiu fugir e foi capturado em pouco mais de uma semana. Como havia escapado uma vez, as atenções se redobraram. Contudo, tempos depois seu ardil e inteligência o levaram a outra improvável fuga — e dessa vez, livre, seguiu para a Flórida. Seu frenesi homicida estava incontrolável e voltou a matar de maneira brutal.

"Curiosamente a sequência de seus assassinatos terminou em um descontrole que fez parecer que ele pedia por sua detenção. Esse descontrole acaba quando finalmente é preso pela polícia e recebe seu castigo."

— Tendlarz e Garcia, 2013, p. 222

Depois de capturado, a imprensa fez de Bundy um astro maior e deu a ele o sucesso que seu ego desejava. Em seu julgamento optou por ser seu próprio advogado, proporcionando cenas bizarras no tribunal americano. Foi condenado pelo júri à pena de morte. Uma das principais provas contra ele foi dada pela perícia de um odontólogo forense — sua arcada dentária estava marcada nos corpos de algumas das vítimas.

"Não obtinha prazer causando dano ou dor à pessoa atacada. Não tinha nenhuma satisfação... A fantasia que acompanha e gera a ansiedade que precede o crime sempre é mais estimulante que o período que segue imediatamente ao crime propriamente dito."

— Ted Bundy (apud Tendlarz, Garcia, p. 220)
A Análise Psicanalítica
Perspectiva Psicanalítica · Rubens Correia Jr.

O caso Bundy é, sob a perspectiva lacaniana, um estudo sobre a estrutura perversa e sua relação com o gozo. Tendlarz e Garcia, em sua análise fundamental, apontam que Bundy não estava simplesmente fora da lei — ele a instrumentalizava. Estudou Direito não para compreendê-lo, mas para manipulá-lo. Defendeu-se no tribunal não porque acreditasse em sua inocência, mas porque o tribunal era mais um palco para seu gozo exibicionista.

A escolha das vítimas — jovens, brancas, cabelos escuros partidos ao meio — não era aleatória. Psicanaliticamente, aponta para uma fixação fantasmática ligada a uma figura feminina específica do passado. O objeto de ódio repetido nas vítimas sugere uma tentativa compulsiva de resolver — via ato — algo da ordem do impossível simbólico: o abandono, a traição, a mentira fundante sobre sua origem.

Ficou claro em suas entrevistas que Bundy na verdade desconhecia o sentido da vida social. As interações entre as pessoas lhe eram totalmente estranhas e alheias. Não compreendia como as pessoas poderiam ter empatia ou qualquer afeto umas pelas outras. Era, nesse sentido, um sujeito radicalmente fora do laço social — não por loucura, mas por estrutura.

Foi diagnosticado com esquizofrenia e em suas entrevistas explicou que quando matava acabava por externar um ódio irrefreável pela sua mãe. O ato homicida era, assim, um endereçamento — distorcido, devastador — a uma figura materna que nunca lhe disse a verdade sobre quem era.

Mesmo após a sua morte Bundy ainda é lembrado em filmes, seriados e outros programas. Recebeu incontáveis pedidos de casamento quando aguardava sua execução no corredor da morte. Chegou a casar com uma de suas fãs. Fez uso de todas as apelações e recursos possíveis frente à corte americana e chegou a admitir na prisão quase três dezenas de homicídios. Mas em 1989 sua história chegava ao fim.

No entanto, o que deve mesmo ser lembrado são os erros que a polícia cometeu ao deixar o estudante de Direito Ted Bundy solto por tanto tempo — por ser um cidadão acima de qualquer suspeita, por ser um estudante republicano sóbrio. Talvez se as investigações tivessem considerado a clareza de algumas provas que apontavam para um bom e jovem rapaz, algumas vidas teriam sido poupadas.

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