Canadá · 1995–2001 · Invisibilidade Social

Robert Pickton — O Fazendeiro que Ninguém Via

Autor Rubens Correia Jr.
Localização Vancouver, Canadá
Período 1995 — 2001
Texto © Rubens Correia Jr.
Imagem Gerada por IA

Suspeita-se que este canadense matou quase cinquenta mulheres entre os anos 1995 e 2001. Além disso, ficou conhecido como o "assassino da fazenda de porcos" que eventualmente distribuía a amigos e conhecidos a carne das próprias vítimas misturadas à de seu rebanho. Outra acusação frequente é que grande parte dos corpos foi usada para a alimentação de seus porcos — o que impossibilitou a resolução dos crimes relacionados às dezenas de mulheres que desapareceram no final dos anos 1990 na região de Vancouver.

Diferente de vários homicidas em série, Pickton era abastado e um destacado fazendeiro. Nasceu em 1949, segundo de três filhos em uma família comum da zona rural da Colúmbia Britânica. Seu pai já tratava de um rebanho de porcos — negócio que não só foi herdado pelo filho como expandido com sucesso.

A Infância e o Isolamento

No entanto, toda a expertise em cuidar de seu rebanho pareceu custar à vida social de Pickton, que desde criança sofreu bullying por causa da profissão de seu pai, de sua sujeira constante e do cheiro que exalava ao chegar à escola vindo direto da fazenda. Esta animosidade demonstrada pelos colegas levou o adolescente a uma vida introspectiva e cada vez mais reduzida à convivência com os porcos.

Embora antissocial, tornou-se um promissor fazendeiro e seu negócio prosperava. Quando tinha um pouco mais de 40 anos, a fazenda de sua família foi desmembrada e vendida — ele e seus irmãos se tornaram milionários. No entanto, nem mesmo o dinheiro tirou Robert da reclusão na zona rural, tampouco o fez mudar de ramo, pois continuou com a criação de porcos.

Seu modo de vida e principalmente sua dificuldade em ser simpático com as pessoas o levaram a ser um frequentador assíduo das zonas periféricas da cidade em busca de prostitutas. Não se sabe ao certo qual o verdadeiro estressor que levou Robert ao primeiro homicídio, mas sem dúvida nenhuma a partir de 1995 as prostitutas que ele frequentemente procurava começaram a desaparecer.

A Invisibilidade das Vítimas

Em 1997 Pickton sofreu a primeira acusação em relação a uma tentativa de homicídio — embora não fosse exatamente novidade para Robert e seu irmão terem problemas com a justiça em outros aspectos. No entanto, seu processo não prosperou, pois a vítima tinha envolvimento com o tráfico e um histórico de uso de entorpecentes, e suas afirmações foram bastante desacreditadas.

Nesta época, Robert juntamente com seu irmão coordenou uma empresa que promovia eventos na região de Colúmbia Britânica — sempre com a presença de prostitutas e frequentadores de outras cidades.

Em 1998 os desaparecimentos frequentes de mulheres da região periférica de Colúmbia Britânica começaram a chamar a atenção de familiares e grupos ativistas. Embora as desaparecidas fossem, em sua maioria, miseráveis e excluídas da sociedade, alguns grupos cobraram duramente as autoridades para que dessem uma resposta oficial.

Não havia um padrão entre as vítimas que divergiam na idade, na cor, no cabelo. As únicas semelhanças eram apenas o fato de serem prostitutas e viverem alijadas da sociedade canadense.

Vários suspeitos foram ouvidos ou investigados, mas a polícia não conseguia avançar nas investigações — até porque faltavam corpos e testemunhas. Para piorar, durante quase dez anos, estima-se que aproximadamente 150 mulheres desapareceram na periferia de Colúmbia Britânica.

A Descoberta e o Julgamento

Em 2002 a polícia efetuou uma batida na fazenda de Robert Pickton. Muitos pesquisadores afirmam que a ação policial foi totalmente aleatória e não havia relação direta com as investigações dos desaparecimentos — a busca feita na propriedade teve como motivação uma suspeita de porte ilegal de armas.

Com exames de DNA, o sangue de algumas vítimas foi identificado. Além disso, alguns pertences das mulheres desaparecidas também foram encontrados na propriedade. No entanto, nenhum corpo foi achado de maneira inteira. A polícia encontrou vestígios de carne humana em freezers e em outros lugares da fazenda. Era difícil quantificar o número de vítimas, mas os investigadores estimaram cinco dezenas.

O padrão de DNA somente oportunizou que Robert fosse julgado por 26 crimes. No final, após um árduo julgamento, o homicida foi condenado a seis prisões perpétuas, mesmo tendo negado amplamente qualquer acusação. Suas condenações não são maiores porque a justiça canadense obstou o julgamento de vinte de suas vítimas por achar desnecessário, tendo em vista a pena das seis primeiras.

Tal decisão causou estranheza pela insegurança jurídica que passou a toda a população canadense — até porque em 2031 o homicida poderá sair em condicional pela lei do país.

— Rubens Correia Jr.
Perspectiva Criminológica · Rubens Correia Jr.

O caso Pickton é uma aula sobre seletividade penal e vulnerabilidade social. Durante anos, dezenas de mulheres desapareceram e o sistema simplesmente não respondeu — porque eram prostitutas, porque eram pobres, porque eram marginalizadas. A invisibilidade das vítimas não foi um efeito colateral: foi um componente estrutural que permitiu ao homicida operar livremente por uma década.

Pickton não era um gênio do crime. Não tinha o charme de Bundy nem a astúcia de Fish. Era um homem comum, isolado, com dinheiro e uma fazenda. O que o protegeu por tanto tempo não foi sua inteligência — foi o desinteresse do sistema em proteger as mulheres que escolhia como vítimas.

Isso é o que a criminologia crítica chama de cifra negra: os crimes que nunca chegam ao sistema, não por falta de ocorrência, mas por falta de vontade institucional de enxergá-los. O caso de Pickton é, nesse sentido, tanto um crime individual quanto um crime sistêmico.

Hoje se especula que Robert deve ser levado a julgamento em breve para receber a sentença em relação às outras 20 vítimas. Embora muito ainda se fale sobre Robert, estranhamente seu irmão nunca foi sequer indiciado pelos crimes ou desaparecimentos — e não há previsão de que isto aconteça.

Aprofunde-se

Arquivo Serial Killer

A análise completa de Robert Pickton e outros casos reais está no livro Arquivo Serial Killer — onde você encontrará assassinos que chocaram o mundo. Arquivos perturbadores da mente humana que parecem saídos de um filme, mas aconteceram de verdade. Depois da primeira página, será difícil parar.

Ver o e-book →